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Museu Indígena Tchirugüne fortalece a memória, a cultura e o protagonismo do povo Tikuna no Amazonas com apoio do Projeto Floresta+ Amazônia

Nos dias 24 e 25 de janeiro, a comunidade indígena Vila Betânia-Mecürane, localizada na Terra Indígena Betânia, no Alto Rio Solimões (AM), celebrou a inauguração do Museu Indígena Tchirugüne. O espaço representa um marco para a valorização, a preservação e a difusão da cultura do povo Tikuna, um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O Museu Tchirugüne integra o Projeto Tchirigüne: fortalecimento econômico-cultural e proteção territorial, apoiado pelo Projeto Floresta+ Amazônia, em parceria com o Instituto N’gutapa e a Amazon Conservation Team – Brasil (ACT-Brasil). A cerimônia oficial reuniu lideranças indígenas, representantes institucionais, autoridades públicas, moradores da comunidade e visitantes.

“Os museus são símbolos da retomada da memória coletiva. No caso do Museu Tchirugüne, trata-se de um dos poucos museus inseridos diretamente em uma Terra Indígena. Ele se afirma como um espaço de resistência cultural, dialogando também com o contexto dos povos indígenas urbanos, ao mesmo tempo em que fortalece a juventude e atua como um importante mecanismo de reafirmação cultural interna do próprio povo”, comentou o analista de campo da ACT-Brasil, Thiago Arruda.
O nome Tchirigüne, que significa “pouso da andorinha”, tem origem em uma narrativa mítica do povo Tikuna e simboliza um lugar de chegada, permanência e continuidade. O museu se consolida, assim, como um espaço de encontro entre memória ancestral, presente e futuro, fortalecendo a identidade cultural e a autonomia comunitária.

Para Taiana Ramidoff, integrante da equipe técnica da Modalidade Comunidades do Floresta+, o museu se consolida como uma ferramenta estratégica e um espaço vivo de fortalecimento cultural, organizativo e territorial. “O projeto demonstra que a conservação da floresta é mais eficaz quando povos e comunidades tradicionais são protagonistas do processo. O investimento realizado vai além da infraestrutura, fortalecendo saberes, autonomia e a gestão territorial. Os resultados alcançados evidenciam a força da organização comunitária e das parcerias construídas com respeito aos tempos, à cultura e às prioridades locais, deixando um legado consistente e duradouro para as próximas gerações”, destacou.

O Museu Indígena Tchirigüne foi concebido como um centro vivo de memória, documentação e educação intercultural. Seu acervo reúne coleções etnográficas, artefatos tradicionais, registros audiovisuais, documentos e materiais textuais que retratam a história, os saberes, as narrativas e os modos de vida do povo Tikuna. Além da preservação do patrimônio cultural, o espaço também atua como local de pesquisa, formação e intercâmbio de conhecimentos, contribuindo para a transmissão intergeracional de saberes.
A estrutura do museu conta com dois andares e um mirante, permitindo a contemplação do território e reforçando a relação entre cultura, paisagem e pertencimento. O protagonismo indígena é um dos pilares da iniciativa: todos os monitores do museu são indígenas Tikuna, responsáveis pela mediação cultural, pela condução das visitas e pela gestão cotidiana do espaço.
A construção do museu foi realizada no âmbito do Projeto Floresta+ Amazônia, com um investimento de aproximadamente R$ 1 milhão, sendo cerca de metade desse valor aplicada na obra. A iniciativa incluiu ainda uma série de ações complementares, como diversas capacitações, muitas delas autogeridas pela comunidade; a implantação de estruturas voltadas ao fortalecimento e ao monitoramento do território, como as casas-balsa; o fortalecimento do turismo de base comunitária e da produção de artesanato, com impacto direto na geração de renda, além da elaboração de documentos estratégicos, como protocolos comunitários, que no futuro irão integrar o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena Betânia.

A programação de inauguração incluiu apresentações culturais tradicionais, com danças e cantos do povo Tikuna, além da visitação ao acervo e da partilha do Paijuaru, bebida tradicional à base de mandioca, presente em rituais e celebrações coletivas, simbolizando convivência e fortalecimento dos laços comunitários.

“Com o apoio do Floresta + Amazônia, conseguimos construir, com muita luta, dentro da nossa aldeia e do nosso território, o nosso museu indígena. Para nós, isso é motivo de muito orgulho. É nesse museu que vamos guardar a nossa história, a nossa cultura, a nossa vivência. Ele existe para que nossos jovens, nossas crianças e nossos netos possam estudar, aprender e saber quem somos. Esse museu garante o nosso futuro: fortalece a educação escolar indígena, o nosso direito territorial, a nossa saúde e o cuidado com a nossa terra. Essa obra é fruto da força coletiva do povo indígena da aldeia Vila Betânia e queremos que todos venham conhecer”, falou orgulhoso a liderança local e presidente do Instituto de Etnodesenvolvimento N’gutapa, Elis Olisio Tikuna.

Para a jovem liderança indígena Keila Tikuna, o museu cumpre um papel fundamental na preservação cultural. “O museu é muito importante para o povo Tikuna porque ajuda a preservar, valorizar e transmitir a cultura e a história da nossa comunidade indígena”, completou.
Parceria – O Projeto Floresta+ Amazônia é uma iniciativa de cooperação entre o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), implementada com recursos do Fundo Verde para o Clima (Green Climate Fund – GCF). O projeto tem como objetivo promover soluções econômicas positivas alinhadas à conservação da vegetação nativa, valorizando o papel de povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e outros atores locais na proteção dos territórios.
Entre suas modalidades, destaca-se o Floresta+ Comunidades, que apoia projetos participativos em territórios coletivos, com foco na conservação ambiental, recuperação de áreas degradadas, produção sustentável, fortalecimento de cadeias da sociobiodiversidade e vigilância territorial. É exatamente esta modalidade que apoia a iniciativa.
Segundo a coordenadora do Projeto Floresta+ Amazônia, Regina Cavini, o apoio ao museu reflete a essência da iniciativa. “O Floresta+ Amazônia atua para fortalecer soluções que unem conservação ambiental, valorização cultural e desenvolvimento sustentável. O Museu Indígena Tchirigüne é um exemplo concreto de como políticas públicas e cooperação internacional podem apoiar iniciativas lideradas pelas próprias comunidades, respeitando seus direitos, saberes e prioridades”, ressaltou.

O apoio ao Museu Indígena Tchirigüne reflete o compromisso do Floresta+ Amazônia com o fortalecimento do protagonismo comunitário, o respeito aos direitos territoriais e culturais e a promoção de iniciativas alinhadas aos planos e prioridades definidos pelas próprias comunidades. A parceria com a ACT-Brasil e o Instituto N’gutapa foi fundamental para a articulação técnica e institucional que possibilitou a implementação da iniciativa.
“A inauguração do Museu Indígena Tchirigüne evidencia, na prática, como políticas públicas e ações de cooperação internacional voltadas à conservação ambiental podem caminhar de forma integrada com a valorização da diversidade cultural e o fortalecimento da autonomia dos povos indígenas na Amazônia. A iniciativa tem uma importância social e cultural imensa”, enfatizou a diretora de Gestão Socioambiental e Povos e Comunidades Tradicionais da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais do MMA, Claudia De Pinho.
O museu está aberto à visitação pública de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h. Aos domingos, o horário é das 10h às 20h e nos feriados, das 13h às 16h. Mais informações (97) 98463-6989 (Instituto N’gutapa).